Adensamento e desenvolvimento: a vez de Garanhuns

Bairro popular de Garanhuns. Fonte: http://www.flickr.com/photos/lucypassos/477469271

Já pensei várias vezes em deixar as mídias sociais por diversos motivos, mas há um que não me deixa largá-las: a discussão sobre o desenvolvimento das cidades, sobretudo Recife, onde nasci e Garanhuns onde me fiz gente.

Esta semana tomei conhecimento da intenção de modificar-se o plano diretor de Garanhuns. Não conheço profundamente o plano, mas vejo com bons olhos a tentativa por parte da lei em controlar o crescimento urbano, da forma que lhe for possível.

É sempre curioso observar, que a sociedade espera mudanças na lei, mas não sabe exatamente como, e tende sempre a questionar o gabarito, a altura dos edifícios. O que a população realmente quer, acertadamente, é adensar a cidade, botar mais gente para viver, nos bairros dotados de infraestrutura. Ao contrário do que muita gente pensa, a cidade espalhada não é uma boa opção de desenvolvimento. Fica impossível prover o imenso território de toda a infraestrutura necessária para que a população viva com os serviços públicos chegando à sua porta. Além disso, o espalhamento da cidade gera homéricos engarrafamentos ao longo das vias de distribuição que ligam o centro aos bairros afastados.

Então se constata que realmente é necessário que a cidade deva adensar-se para desenvolver-se. O adensamento pode vir de várias maneiras. Cidades com características urbanas tão diversas como Recife, São Paulo, Paris, Barcelona ou Nova Iorque, são densas, umas mais outras menos. Apesar disto verifica-se que algumas delas, desenvolveram-se mantendo sua identidade através de uma qualidade urbana que permite à sua população aproveitar a cidade nas suas atividades cotidianas. E quando digo aproveitar, quero dizer usar mesmo: viver, caminhar, jogar, brincar, conversar, divertir-se, encontrar-se, perder-se…

E porque só apenas algumas delas mantiveram sua identidade? Tentarei em poucas linhas dar subsídios para que o leitor seja capaz de refletir sobre esta pergunta. Para não correr o mesmo equívoco que a sociedade e começar demonstrando preocupação com o gabarito, introduziremos ao leitor o conceito de urbanidade, considerado aqui, o uso do espaço público – becos, travessas, ruas, avenidas, largos, praças, parques… – o movimento gerado pelo deslocamento das pessoas nestes espaços é o que realmente faz diferença na segurança pública e na qualidade de vida das pessoas.

Nova Iorque, com os mais altos edifícios e com mais densidade populacional, tem muita urbanidade, que é facilitada pelo adensamento – sim, é verdade que colocar muita gente vivendo no mesmo espaço pode tornar este espaço muito vivo e atrativo, mas tudo depende como se faz. Quando mal feito, as pessoas abandonam a rua e a urbanidade se esvai, rua sem gente, é cidade morta, o crime toma conta. Os térreos dos edifícios estão permeados por espaços semipúblicos, que fazem às vezes de pracinhas, lugares de encontro e convívio. Igualmente no térreo destes edifícios existe uma infinidade de comércios e serviços que geram movimento. O convívio entre os diferentes é que gera identidade, vincula as pessoas, movimenta as ruas ao mesmo tempo em que, as torna seguras. Além disto, existem espaços públicos de dimensões generosas, como grandes parques a exemplo do Central Park, capazes de isolar as pessoas e abrandar o caos gerado pelo acumulo de atividades humanas no espaço da megacidade.

 

 

Paris e Barcelona têm as mais altas densidades da Europa, são cidades igualmente cosmopolitas. Nestas cidades geraram-se unidades de vizinhança, onde o cidadão pode circular e comprar tudo que necessita percorrendo estas pequenas distâncias a pé. Assim diminui-se o uso do carro, o grande vilão da cidade moderna, além da sobrecarga no transporte coletivo. Estas cidades estão igualmente permeadas por espaços públicos de qualidade, desenhados para que a população desfrute da cidade, convivendo intensamente. Nelas há limites de altura, com excelente resultado: a geografia da cidade continua sendo percebida permitindo a conservação da paisagem para as gerações futuras.

 

 

São Paulo e Recife, a segunda pior do que a primeira, já que em São Paulo em alguns bairros centrais como Higienópolis por exemplo, conserva-se alguma qualidade urbana e pode-se fazer muita coisa caminhando, gerando urbanidade. Recife é o pior exemplo que se pode tomar. Sem nenhum, ou quase nenhum bairro ou zona, que atenda ao conceito de unidade de vizinhança. Os edifícios não guardam relação com a rua, por sua vez, as pessoas entram e saem de carro, abandonando a passagem pelo espaço público. Não existem comércios e serviços nos térreos. A lei permite remembrar os terrenos em condomínios imensos. Numa rua onde antes existiam 20 portas, pontos de contato que geravam urbanidade, agora existem um ou dois portões, sendo o de carro, o eleito para acessar o edifício sem passar caminhando na rua. Sem urbanidade, a cidade vai ficando cada vez mais abandonada e vazia gerando insegurança e degradação urbana. Sem urbanidade não existe identidade.

Resta-nos pensar: Como queremos que seja a Garanhuns do futuro? Uma Garanhuns-Paris ou uma Garanhuns-Recife? Seja qual for a nossa decisão, ela deve estar apoiada cientificamente sobre um lastro ditado pela população. O ideal para Garanhuns é discutir o tema em um seminário com especialistas, representantes das universidades e com a sociedade civil, para que estes cenários estejam bem expostos e entendidos por todas as partes. A partir daí, pode-se decidir conscientemente por um modelo de desenvolvimento eficaz que não mate a cidade e destrua sua identidade. Diferente de Caruaru, que irreversivelmente já optou em ser uma mini “Hellcife”, ainda dá tempo de salvar Garanhuns! A nossa pequena notável tem vocação e não acredito que seja para INFERNO! Viva Paris!

P.S. Leitura recomendada:

Gehl, J. Cidades para pessoas.

Jacobs, J. Morte e vida das grandes cidades americanas.

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Acerca de Alexandre Bahia Vanderlei

Alexandre Bahia Vanderlei é mestre em Teoria e Pratica do Projeto de Arquitetura pela Escola Técnica Superior de Arquitetura Barcelona da Universidade Politécnica da Catalunha. É arquiteto do Ministério Público de Pernambuco e também atua no setor privado com especial interesse nos projetos de habitação e concursos públicos de arquitetura. Atualmente vive em Barcelona e participa como aluno do programa de doutorado em projetos arquitetônicos da ETSAB-UPC.

Un Comentario

  1. Pingback: ADENSAMENTO E DESENVOLVIMENTO: A VEZ DE GARANHUNS . POR ALEXANDRE BAHIA VANDERLEI | Modulação

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