Pelópidas Silveira e a lei dos telhados verdes

A semana do centenário do engenheiro Pelópidas Silveira, [1]  profissional com grandes serviços prestados ao Recife, e que dá nome ao instituto municipal que atualmente faz o planejamento urbano da cidade, foi marcada por homenagens ao engenheiro por parte da prefeitura e pela aprovação da lei dos telhados verdes – Lei Nº 18.112 /2015. Esta última, com grande repercussão junto à sociedade.

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Fotografia de Pelópidas Silveira. Fonte: http://www.onordeste.com/administrador/personalidades/imagemPersonalidade/ba514b2d676bd8ab44d4af02f9693157791.jpg

 Dois exemplos muito distintos de telhado verde ilustraram as reportagens que saíram na mídia. [2] Num vídeo do Jornal do Comércio  o dono do bar Central simpaticamente apresenta sua horta sobre a laje que cobre os dois andares do seu bar. Excelente exemplo, um edifício mais baixo que os do entorno que faz uso do seu telhado e aproveita para presentear os vizinhos com menos reflexão de luz e algo de natureza no meio do concreto da cidade grande. Já o outro exemplo, se não me engano é um edifício empresarial, mostra um terraço com algumas plantas de aspecto sintético e com o piso revestido em material impermeável. O que lança as primeiras dúvidas sobre a real eficiência da lei.

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Telhado verde do bar Central, Recife. Fonte: Jornal do Commércio. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PaPeLBxGfaI&feature=share

 Façamos, umas “contas de padaria” como dizia meu avô Orlando, digamos que a galeria do bar Central, deve ter quase a mesma área de fachada que de telhado, ou seja, desconsiderando outros fatores como por exemplo a sombra projetada dos edifícios mais altos do entorno, podíamos dizer que a cobertura verde atenuaria metade das emissões de calor irradiado pela edificação, já que metade da área estaria protegida por esta vegetação.

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Telhado supostamente verde de um edifício empresarial na zona central do Recife. Fonte: Jornal do Commércio. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PaPeLBxGfaI&feature=share

Mas o que ocorre se fizermos a mesma conta com uma torre, visto que sua área de fachada é infinitamente maior? Tomamos como exemplo fictício um edifício de 30 plantas tipo, com uma lâmina de 400 m2. Como a conta é “de padaria” descartaremos dos cálculos todas as áreas do telhado ocupadas com instalações ou outros usos que impossibilitem seu uso para o plantio de vegetação. Imaginemos a lâmina de 400 m2 por andar, 20 x 20m. Logo a torre teria 4 fachadas de 20 m de largura, por 90 m de altura, o que dá uma área de 7200 m2  de fachada que continuarão emitindo calor, contra apenas 400m2 de telhado verde. A área de telhado verde é apenas 5,26% da área do edifício que irradia calor, também não computamos o piso do pavimento vazado, que pioraria a situação. A área das fachadas é 94,74% da área que irradia calor e vai continuar irradiando.

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Diagramas. Fonte: Desenho do autor.

Se considerarmos que Recife é uma cidade de torres e não de edifícios horizontais como a galeria que abriga o bar Central, o impacto desta lei será mínimo, na pratica, dá indícios de que pouco contribuirá para construir um modelo de cidade sustentável como hoje quer boa parte da população recifense organizada.

Isso desmerece a lei? a resposta é não, não desmerece, a lei é válida, mas é muito pouco! Não dá para mudar o modelo de cidade com ações de efeito tão pequeno. É muito alarde para pouco resultado prático.

Na contramão disso tudo, a prefeitura enviou à câmara de vereadores um projeto de lei para regular um plano urbanístico para uma zona central da cidade, que não foi discutido com a sociedade e que não representa os seus anseios para a área. Muito pelo contrário, alguns setores da sociedade são contra. Na primeira reunião para discussão do referido plano na câmara de vereadores do Recife no dia 15 de abril de 2015, o Conselho de arquitetos e urbanistas de Pernambuco – CAU-PE, e o IAB – Instituto de arquitetos do Brasil, foram desfavoráveis a aprovação do plano sem que antes se aprofundasse sua ampla discussão com  a sociedade civil. Quem conhece a trajetória do IAB, já esperava que o instituto tivesse essa coerente decisão, mas o apoio do recém surgido CAU-PE à sociedade foi um sinal que os arquitetos e urbanistas talvez estivessem certos quando saíram do sistema CREA-CONFEA para criar o seu próprio conselho.

A propósito, na mesma audiência, o CREA-PE – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, chegou a se manifestar, a favor da  especulação imobiliária na cidade. Já a posição do CAU-PE nesta ocasião, foi uma mostra de compromisso com a sociedade. Esperemos que o conselho dos arquitetos continue dando mostras de que valeu a pena ter saído do sistema CREA-CONFEA ressaltando a importância do diálogo com TODAS as pessoas que vivem o cotidiano e constroem a cidade como um bem coletivo.

As gestões de Pelópidas Silveira como prefeito do Recife, deixaram sua marca de engenheiro com visão social. Pelópidas, atuou na melhoria do transporte publico com a criação da Companhia de Transportes Urbanos. Criou sistemas de participação popular na gestão publica através de audiências públicas e estímulo à formação de associações de bairro. Além disso, deu assistência às populações dos morros e alagados. [3]

O conselho dos engenheiros e a prefeitura do Recife, um dos lugares que foi plataforma do trabalho profissional do engenheiro Pelópidas, sem fazer alarde, tomaram posições nitidamente favoráveis ao capital imobiliário especulativo em detrimento da grande maioria da população, fato que, aliás, deve ter feito o finado Silveira revirar na sua tumba. Embora seja oportuna esta justa homenagem a um homem que pensava além do seu tempo, mais coerente seria, se a tivessem feito sem afrontar os seus ensinamentos.

Notas:

[1] Pelópidas Silveira foi também, professor assistente da cadeira de resistência de materiais das Escolas de Engenharia e de Belas Artes de Recife, e professor titular de Construção Civil, Mecânica de Solos e Resistência de Materiais. Diretor de Viação e Obras Públicas do Estado de Pernambuco (1936-1937). Organizador do Instituto Tecnológico de Pernambuco bem como de sua Seção de Solos e Fundações. Prefeito da cidade do Recife com histórico de importantes obras publicas. Fonte: BARBOSA, Virgínia. Pelópidas Silveira. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, 2008. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: 18 de abril de 2015.

[2] Neste vídeo o Jornal do Commércio mostra os dois exemplos.

[3] Veja-se: BARBOSA, Op. cit. 2008.

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Acerca de Alexandre Bahia Vanderlei

Alexandre Bahia Vanderlei é mestre em Teoria e Pratica do Projeto de Arquitetura pela Escola Técnica Superior de Arquitetura Barcelona da Universidade Politécnica da Catalunha. É arquiteto do Ministério Público de Pernambuco e também atua no setor privado com especial interesse nos projetos de habitação e concursos públicos de arquitetura. Atualmente vive em Barcelona e participa como aluno do programa de doutorado em projetos arquitetônicos da ETSAB-UPC.

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