Pavilhão da CSN 1954: Recorrência técnica e manifesto de modernidade

Resumo

Sergio Bernardes nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1919 e morreu em 2002. É considerado um dos arquitetos mais importantes da segunda geração de arquitetos modernistas cariocas. A pesar de haver sido reconhecido num primeiro momento por suas casas, não se sabe que papel as mesmas desempenharam no desenvolvimento de seu repertorio arquitetônico. De fato, se sabe pouco sobre o trabalho de Bernardes e até a presente data há pouca literatura sobre o arquiteto.

Com o objetivo de analisar a obra de Sergio Bernardes, para explorar sua metodologia de trabalho, suas referências e a esfera de influência de sua obra, estudamos seus projetos concebidos na década de 1950. Esta década corresponde às fases de formação e desenvolvimento, quando Bernardes começou a buscar novos caminhos para sua arquitetura e que são, portanto. As etapas mais relevantes para comprovar a hipótese que para Sergio Bernardes a arquitetura era a consagração da técnica, esse era o campo onde explorava ao máximo as possibilidades do projeto arquitetônico. Em 2013, tivemos acesso ao arquivo do arquiteto, depositado no Núcleo de Pesquisa e Documentação da FAU/UFRJ e elegemos a Casa Lota de Macedo Soares (1951), o Pavilhão da Companhia Siderúrgica Nacional – CSN – (1954) e o Pavilhão do Brasil na exposição Universal de Bruxelas (1958) como objetos da nossa pesquisa.

Dentro do marco da celebração do quarto centenário da cidade em 1954 se construiu, sob projeto de Oscar Niemeyer, o Centro de exposições de São Paulo (1951) no Parque Ibirapuera. A Companhia Siderúrgica Nacional construiu um pavilhão para divulgar as possibilidades utilitárias dos materiais que eram produzidos na sua usina de Volta Redonda. O programa, era o de um stand de feira que pudesse exibir os produtos da empresa durante as festividades dos quatrocentos anos de São Paulo. O êxito que o arquiteto Sergio Bernardes obteve com a repercussão positiva do projeto da Casa Lota, construída em parte com aço, lhe abriu as portas ao encargo do edifício expositivo da CSN. A empresa siderúrgica necessitava que Bernardes manifestasse a modernidade como una possibilidade técnica industrial, através da forma e materialidade de seu pavilhão.

FACHADA

Elevação longitudinal. Fonte: Arquivo de Sergio Bernardes/NPD-FAU/UFRJ.

Encontramos no arquivo do arquiteto três propostas do projeto que mostram seu desenvolvimento. O parque tem um pequeno riacho que forma um lago. O córrego tem duas partes, uma primeira muito estreita e uma segunda onde se alarga para formar o lago. O Pavilhão da CSN foi situado no final da parte mais estreita do riacho, justamente antes de que este se alargue.

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Fotografia aérea (2015) da ponte remanescente do Pavilhão da CSN (1954). Fonte: Google.

Mesmo que a forma primária da ponte sobre arcos fora “escolhida” pelo arquiteto antes de que fosse determinada a localização do pavilhão, a topografia foi também, um condicionante desse projeto. Houve também, um especial interesse nas uniões da estrutura, estas junções estavam feitas de chapa e soldadas numa das peças, possibilitando seu ligamento com a outra peça estrutural por meio de pernos e porcas. De fato, tudo pensado para, de maneira didática mostrar esta qualidade técnica do material – o aço – que possibilitava a desmontagem e montagem do edifício em outro lugar.

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Fotografia da junção com o bloco de base em concreto. Fonte: Foto do autor (2015).

Observamos também o tema fenomenológico, Sergio Bernardes projetou um pavilhão ponte que nos dias de chuva, incorporava pequenas cascatas paralelas às fachadas longitudinais. Bernardes aproveitou a chuva para causar através de sua arquitetura outras sensações. As cascatas, introduziram o ruído percebido pelo sentido da audição, o olor pelo olfato e a umidade pelo tato, à vivencia do espaço da arquitetura.

CASCATA

Fotografia do Pavilhão da CSN (1954). Veja-se a pequena cascata formada paralelamente à fachada. Fonte: CAVALCANTI, L. Sergio Bernardes, un modernist radical. L’Architecture d’Aujourd’Hui, 2005, n. 359, p.75.

O pequeno edifício projetado por Bernardes, era temporário e foi desmontado tão logo se acabou o aniversário da cidade. Dos quatro arcos estruturais que compunham os apoios do Pavilhão da CSN, dois permaneceram para servir de ponte de pedestres sobre o lago onde acaba o riacho existente no parque. Não obstante, a ponte ganhou significado social, pois o usuário do parque se apropriou do seu espaço como mirante e ponto de encontro. O projeto se caracteriza por este ato topológico, que é a ação de construir uma ponte, unir as duas margens de um riacho, e criar a possibilidade de cruzá-lo num ponto determinado.

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Fotografia da ponte remanescente. Fonte: Foto  do autor (2015).

O projeto se desenvolveu buscando a melhora de sua funcionalidade e comportamento estrutural. Evoluiu para responder aos problemas enfrentados no campo real da obra executada. A técnica ganhou espaço no conjunto de forças que influem na forma da arquitetura. O Pavilhão da CSN é a primeira das estruturas singulares de Sergio Bernardes e mesmo tendo sido desmontado, permanece fisicamente no lugar em forma de ponte de pedestres e se perpetua como um edifício de referência na arquitetura moderna brasileira.

Artigo completo publicado nos anais do XI DOCOMOMO BR.

 

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Acerca de Alexandre Bahia Vanderlei

Alexandre Bahia Vanderlei é mestre em Teoria e Pratica do Projeto de Arquitetura pela Escola Técnica Superior de Arquitetura Barcelona da Universidade Politécnica da Catalunha. É arquiteto do Ministério Público de Pernambuco e também atua no setor privado com especial interesse nos projetos de habitação e concursos públicos de arquitetura. Atualmente vive em Barcelona e participa como aluno do programa de doutorado em projetos arquitetônicos da ETSAB-UPC.

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